sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A ditadura acabou. Falta avisar a polícia

Fernando Vives
Rezam os livros de história que, quando Dom João VI correu do Rio de Janeiro em 1821 de volta à Portugal, raspou os cofres e deixou um território gigantesco para ser administrado por seu filho, Dom Pedro. Este, sem muito talento para a coisa e de pires na mão, iniciou a história independente de um país que já nascia adiando suas necessidades e obrigações.
Ou seja: nascia o Brasil que conhecemos.
A partir daí, quase tudo o que constitui uma civilização ocorreu no Brasil tardiamente, e daquele jeito bem mais ou menos. Ou então ainda não ocorreu. A primeira universidade brasileira surgiu no século XX, centenas de anos após nossos vizinhos terem as suas. Escola pública universal é uma conquista recente, e só ocorreu quando a qualidade dela já não era das melhores. Os surtos de dengue se repetem a cada verão. E o respeito aos direitos humanos ainda está longe dos hábitos enraizados da sociedade.
No último século, lampejos de uma democracia frágil e duas ditaduras, a de Getúlio Vargas e a dos milicos, acabaram por deturpar uma das instituições fundamentais para a evolução de uma sociedade: a polícia.
O brasileiro aprendeu a ter medo de quem veste farda. Nos anos de chumbo, porque a polícia tinha poderes arbitrários para prender quem quisesse. Tem cara de terrorista? Vai preso. Tem cara de bandido? Vai preso. Está sem o R.G.? Vai preso. Está fazendo nada? Vai preso por vadiagem. E assim foi por muitos anos. Se perguntassem a um policial nos anos 1970 sobre qual era a prioridade de seu trabalho, a resposta padrão seria “manter a ordem”, e não “proteger a sociedade”.  O cassetete virou política.

Isso porque, na prática, a polícia defendia os governantes da própria população, porque uns queriam ser representados e outros se outorgaram o direito de representar. Estavam em lados opostos, algo que não faz sentido, em tese, em uma democracia – em que você pode cobrar quem elegeu como representante.
A polícia é um exemplo de que a transição da Ditadura Militar para a democracia parece ser mais um capítulo dessa história brasileira na qual as coisas acontecem mais ou menos, das políticas que mudam mas não muito, da evolução que se dá do jeito que der e não do jeito que deveria ser.  Podem ter existido casos isolados, mas nunca  houve uma real e abrangente ruptura das estratégias policiais da Ditadura com a maneira como as polícias estaduais atuam hoje.
Três fatos desta semana exemplificam esse fato: a ação da PM paulista na chamada Cracolândia, zona central de São Paulo tomada por viciados; a violência gratuita de um policial, também da PM paulista, contra um estudante da USP;  a ação repressiva da polícia do Piauí contra estudantes que protestavam contra o aumento da passagem de ônibus.
O que podemos fazer para acabar com o problema do crack no centro da maior cidade do País? Borrachada em viciado, impugindo-lhes propositalmente “dor” e “sofrimento”, relegando a segundo plano a ação de saúde pública e de assistência social. O que fazer com estudantes a protestar contra o aumento da passagem de ônibus? Borrachada neles, como se fossem revolucionários comunistas tentando tirar o milico de plantão no poder do País.
É importante frisar que ser um policial competente no Brasil é um sacrifício digno de odisséias  bíblicas. O salário é baixo, sobretudo se comparado ao risco que ele corre todos os dias. Quase nunca ele tem ao seu dispor uma boa estrutura para exercer o ofiício. E ainda tem grandes chances de receber instruções deturpadas no que se refere aos direitos humanos.
As autoridades já deveriam  há muito tempo ter criado uma política nacional para a ação policial, seja esta sob jurisdição estadual ou municipal. Polícia que bate sem contexto de legítima defesa é polícia subdesenvolvida. A incapacidade das corporações policiais em resolver os problemas sem o cassetete mostra um país a evoluir do jeito que dá e não do jeito que deveria ser. É o rescaldo da Ditadura, que nos lembra diariamente o quão longe ainda estamos de sermos uma civilização avançada, não importa o quão bem caminhe nossa economia.
Extraído da Carta Capital desta semana

4 comentários:

  1. Pinuca,
    Qual a função primordial das polícias? Eis a questão. No Brasil, ser policial é ser autoridade quase que intocável. Isto se deve porque os recrutamentos, nem sempre, são precedidos de cuidadosos exames psicológicos capazes de aferir se o candidato possui ou não condições psíquicas para o exercício da espinhosa missão. Simplesmente se alistam, incorporam, se fardam, se armam com poderosas
    máquinas bélicas e saem por aí como se fossem os verdadeiros donos da verdade. E nós somos obrigados a convivermos com essa condição constrangedora. A verdadeira função da polícia é justamente manter a ordem e proteger os cidadãos dos atos de agressões contra a vida e contra o patrimônio.

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  2. A nossa polícia é a cara do nosso povo, mas já foi pior,como o povo também já votou pior, pensou pior, viveu pior... tem que acreditar que isso também melhora, mas a cultura que é transmitida de sargento pra praça dentro dos quartéis das pms é baseada na idéia de que polícia é pra baixar o cacete no povo, simplim assim...

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  3. Ora, nada contra a reivindicação dos estudantes na nossa capital, mas convenhamos, a policia esta agindo tentando proteger o patrimonio publico e privado. O que se ocorre diariamente nestas manifestações são estudantes, simpatizantes políticos e muitos arruaçeiros embriagados infiltrados provocando panico nas pessoas. É inadimissivel o que estamos vendo todo dia e achar e querer que a policia, que é pra manter a ordem, fique apatica, sem reagir às agressoes e quebra-quebra destes ditos estudantes. Acho que e reivindicação procede em partes, realmente teve aumento e tem que haver uma ampla conversa das partes pra se resolver problema e chegar a um acordo, mas, depredar, tocar fogo, jogar pedras, agredir, acho que não é o melhor caminho. E o mais engraçado é que "estudantes" podem encarar a policia armados de pedras, paus. mascarados e a policia que é paga por TODOS nós pra manter a ordem ficar a esperar estas agressoes e não reagir. Já pensou se tudo que aumentar de preço na vida tivermos esta mesma reação? Acho que tocariamos fogo no mundo. O Comercial Carvalho, Pão de Açucar, Bom Preço, Extra, etc, etc, seriam transfomados em pó.

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  4. "Foi pouco, deveriao passar pelo menos uns dois anos preso ou pagar 100 mil pra sai"(sic) Esta é uma dentre inúmeras opiniões,referente às prisões de jovens nas manifestações contra o aumento das passagens dos coletivos urbanos de Teresina, postadas nas redes sociais, e que refletem muito bem o quanto é significativo o comportamento conservador na nossa sociedade.Isso incrementado pelo comportamento da mídia mafrense, que ao situar-se na ponta do sistema capitalista, obviamente que não era de se esperar posicionamento diferente. Não devemos esquecer o papel desempenhado pelos jovens em maio de 1968, na França, quando os estudantes franceses deixaram salas de aula e se mobilizaram para dar a seus professores, pais e avós, às instituições e ao governo "lições" sobre os "novos tempos, a liberdade e a rebeldia". A rebeldia de jovens, no maio de 68, mudou profundamente as relações entre raças, sexos e gerações na França, alastrando-se por toda a europa e com reflexos em todo o mundo.E a história recente do mundo, tem nos jovens a mola propulsora das transformações sociais.Paris talvez seja o maior exemplo. No Brasil quem foi para as ruas, para a luta armada contra o espúrio regime militar? Foram os jovens.Nas diretas já, e no restabelecimento do estado de direito, com a implementação da nossa ainda jovem democracia mais uma vez, tivemos a participação direta dos jovens.No fora Collor, os caras pintadas foram decisivos para a queda do corrupto presidente. E afinal de contas no regime em que vivemos, pelas práticas políticas que todos conhecemos, em todos os níveis de governo,seja municipal, estadual ou federal, de uma coisa temos certeza: todos os governos são como feijão ruim, que para cozinhar só na pressão. E viva os jovens!!!E abaixo o pensamento retrógrado e obtuso dos conservadores.

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