Por: Marcus Paixão
Realizar pesquisa sobre a história de
Campo Maior não é tarefa simples. Mesmo contando mais de 300 anos de
povoamento, é muito pouco o que foi produzido e o que foi preservado ao longo
das gerações. Salvo os registros eclesiásticos, os documentos do Cartório, e as
documentações dos governos municipais que se sucederam na cidade, não têm quase
nada que tenha saído da pena de pesquisadores independentes, de historiadores,
cronistas, poetas, etc. E ainda temos um agravante: os primeiros documentos da
igreja de Santo Antônio, constando de seu livro de Tombo, suas atas, vários
registros da época, foram perdidos no dia da Batalha do Jenipapo, quando foram
ateado fogo na documentação da igreja pelos injuriados campomaiorenses. O
levante que incinerou o acervo documental da igreja da Freguesia de Santo
Antônio fez desaparecer importantíssimos documentos, que continham, dentre
outras informações, a data da criação desta Freguesia do Surubim, além das
informações históricas que poderiam por fim à questão das origens do
povoamento. Várias datas já foram anunciadas pela própria igreja de Santo
Antônio. No bispado de Dom Abel, a data oficial da criação da Freguesia era
1711, a qual também foi defendida pelo padre Cláudio Melo; depois surgiram mais
duas possíveis datas (1712 e 1713). Recentemente o novo bispo da paróquia, Dom
Eduardo, disse ter encontrado em documentação da igreja a data de 1715. Essa
última data não parece muito provável, além de que o documento não foi
apresentado pelo bispo. A falta de documentação segura tem provocado essa
indecisão.
Também não podemos esquecer que o
acervo documental oficial, tanto da Justiça como do Poder Público que vigorou
por mais de dois séculos em nossa terra está altamente comprometido atualmente.
Grande parte destes arquivos já não existe mais. Foram deteriorados pelas
intempéries provocadas pelos sucessivos anos que se sucederam. Quanto aos
poucos escritores, o que resta do que eles escreveram é muito pouco e
dificílimo de ser encontrado. Mesmo formando pequeno número, Campo Maior nunca
esteve ausente de mentes que brilharam na escrita de sua história, seja ela
contada em verso ou na prosa. Porém, muito, do pouco que foi produzido, está
perdido.
Alguns nomes se destacam nesta
primitiva e seleta galeria de intelectuais de nossa história mais antiga.
Talvez os trabalhos mais conhecidos e preservados sobre a história de Campo
Maior tenham sido produzidos pela professora MARION SARAIVA (1902 – 1968). Ela
escreveu sobre importantíssimos episódios de nossa história, resgatou
lembranças e histórias que ouviu de parentes que remontam o início do século
XIX. Relembrou antigas tradições religiosas que há tempos foram esquecidas.
Lutou arduamente pela preservação dos monumentos de Campo Maior junto às
autoridades locais. Escreveu inumeráveis cartas, onde, indiretamente, escrevia
a história de Campo Maior. Defendeu em meados dos anos 60 a preservação do
açude, quando este estava sendo ameaçado pelo prefeito daquele período de ser
completamente aterrado.
Impôs-se irredutivelmente contra a
demolição do Cemitério da Irmandade de Santo Antônio (Cemitério Velho) na mesma
década, quando a proposta de retirá-lo do centro da cidade para que o processo
de modernização e ampliação das ruas tomasse lugar. Lutou, a priori, mesmo sem
ter conhecimento de causa, até contra o padre Mateus, visto que ele próprio
estava a favor da demolição. Mateus Já havia, como bem lembrou Moacir Ximenes,
derrubado uma igreja do século XVIII, aquela que era a primeira igreja de Santo
Antônio, para levantar em seu lugar a belíssima catedral atual. Porém, a cidade
ficou privada daquela que poderia está associada às igrejas mais antigas do
Brasil. Padre Mateus era um homem de espírito inovador, moderno, e sua intenção
na demolição do “Cemitério Velho”, não era outra, senão, modernizar a cidade.
Marion foi uma das vozes, talvez a principal voz, devido ao prestígio que
conquistara por sua intelectualidade e lisura, que brigou para que o cemitério
fosse preservado. Alguns anos atrás, ironicamente, o mesmo cemitério que foi
defendido pro Marion teve parte de sua parede demolida. Foi somente o “bico” do
muro, como disseram à época alguns, mas o novo muro, que diminuiu a extensão do
cemitério e sacrificou uns poucos sepulcros, foi construído quase que por cima
do túmulo de nossa ilustre pesquisadora.
O que Marion produziu está
preservado, mas sua produção ainda é pouco conhecida do grande público. Talvez
um dos textos mais conhecidos e admirados de Marion seja o que foi imortalizado
nas páginas do livro “Geração Campo Maior”, de Reginaldo Gonçalves de Lima, sob
o título de “O Açude de Campo Maior”. Esse texto de Marion Saraiva foi escrito
especialmente para o Jornal “A Luta”, depois que “muitas pessoas” já haviam lhe
procurado buscando informações sobre a lagoa. Foi publicado na edição de abril
de 1968, poucos meses antes de sua morte.
Mas Campo maior teve outros bons
historiadores antes de Marion. Oriundo da família Oliveira, irmão gêmeo da
professora Briolanja Oliveira (outra intelectual brilhante de Campo Maior), dentre
os maiores historiadores campomaiorenses de todos os tempos, está JOEL GENUÍNO
DE OLIVEIRA. Da mesma barrigada de sua mãe, dona Ana Rosa de Andrade Oliveira,
Campo Maior foi agraciada com Briolanja Oliveira e Joel Oliveira, ainda no
inicio do ano de 1880. Destacado pesquisador, Joel Oliveira deu contribuições
de tão grande peso para a preservação da história de Campo Maior como nenhum
outro antes dele. Era profícuo escritor de jornais da capital piauiense, como
“O Dia” e “Diário Oficial do Estado”. Em ambos os jornais detinha coluna
exclusiva sobre a história do Piauí. Suas colunas nos respectivos jornais eram Fragmentos da História e Atos e Fatos da História do Piauí.
Escreveu também livros, vários artigos, sendo, inclusive um dos mais
importantes colaboradores do “Almanaque da Parnaíba”.
O Almanaque da Parnaíba, ao
apresentar uma foto homenageando o autor, reporta-o da seguinte forma: “É ele
um dos nossos mais brilhantes colaboradores. Pesquisador inteligente,
apaixonado pelos estudos de história, dedicado cultor da paremiologia piauiense,
tem refletido nas páginas deste anuário os fulgores de sua cultura,
enriquecendo esta edição com um exaustivo estudo sobre Campo Maior” (PARNAÍBA,
Almanaque. 1933, p. 87). No artigo citado no Almanaque,intitulado “Campo Maior:
Synthese Histórica”, cobrindo as páginas 228 a 242, incríveis 15 páginas de
pura informação histórica, Joel Oliveira faz uma descrição de inestimável valor
para a historiografia local, visto que apresenta informações gerais sobre a
cidade, tais como um breve histórico da cidade, seguidas de informações sobre a
população, a urbanização, constando com riquíssimo registro. Aborda sobre a
história da imprensa local, as associações, um histórico do açude grande, e uma
lista de capelas católicas e padres que por aqui passaram. Um completo tesouro
de informação histórica de Campo Maior.
O texto de Joel Oliveira, mesmo
contendo apenas uma nota curta sobre o histórico do açude, foi a principal
fonte de Marion Saraiva na construção do seu mais famoso texto, sobre o açude, citado
anteriormente. Marion escreveu em 1968, enquanto que Joel Oliveira fez suas
anotações muito mais cedo, em 1932, sendo publicadas no ano seguinte, na edição
do Almanaque da Parnaíba de 1933. Sendo de reconhecida intelectualidade, foi
fonte segura para as pesquisas de Marion.
Na estirpe dos Oliveira, de Campo
Maior, fulguram nomes que muito se destacaram na cultura e história da cidade.
A família tem variados entrelaçamentos. Do tronco do qual descende Joel
Oliveira, formaram-se os seguintes entrelaçamentos: Cel. Emydio Genuíno de
Oliveira e Ana Rosa de Andrade. A união resultou em nove filhos: Anísia, que
nasceu em 1860, seguida de Dina, Rozendo, Rozina, Valdivino Tito Oliveira, João
Crisóstomo de Oliveira, Edmundo Genuíno de Oliveira, Briolanja Genuíno de
Oliveira e Joel Genuíno de Oliveira. Destes, na área intelectual
destacam-se principalmente Valdivino Tito de Oliveira, Briolanja de Oliveira e
Joel Oliveira.
Do entrelaçamento de sua estirpe
procede ainda Conrado Oliveira, pai de Maria da Natividade Oliveira, Raimunda
Oliveira (dona Zuca) e ThemístoclesOliveira. Procedem na geração seguinte, das
três filhas de Conrado Oliveira, os seguintes nomes: Adelmo Paixão, mecânico e
inventor e Napolaão Paixão, brilhante professor e orador, filhos do comerciante
Laurindo Alves Paixão e Maria da Natividade Oliveira Paixão. De dona “Zuca”Oliveira
e Francisco Napoleão descendeValmira Napoleão, autora da letra do hino de Campo
Maior e educadora. Themístocles Oliveira casou com Adalgiza e gerou os três
“Murilos”, filhos que ficaram bem conhecidos em Campo Maior: “Murilo”,
“Murilinho” e “Murilão”. O historiador Celson Chaves, em sua pesquisa que
acabou se transformando nolivro “O Cemitério da Irmandade de Santo Antônio”
(2013), localizou boa parte dos túmulos da família Oliveira e seus entrelaçamentos
aqui mencionados.
Sendo um dos “grandes” na história de
Campo Maior e do Piauí, é constrangedor o fato de que Joel de Oliveira,
principal nome da família no que diz respeito aos estudos históricos, talvez o
maior historiador de Campo Maior da primeira metade do século XX, não seja nem
lembrado em sua cidade. Embora Adrião Neto e Wilson Carvalho Gonçalves, em seus
livros “Escritores Piauienses de Todos os Tempos” e “Dicionário
Histórico-Biográfico Piauiense” tenham honrado a memória de Joel Oliveira, as
principais academias literárias da cidade (ACALE e ALTEC) ainda não o
homenagearam com nenhuma cadeira.Joel Oliveira faleceu na capital, Teresina, em
1969. A memoria de um homem que projetou
não só o seu nome, mas a sua própria cidade à posteridade, não pode ser
esquecida.
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