quarta-feira, 2 de abril de 2014

Bater no golpe de 64 é como chutar cachorro morto...


Tenho relutado em escrever o que acho do golpe por essa razão... Gosto de bater em cachorro vivo, raivoso e babando de ódio, pra entre outras coisas, exercitar como bater nele sem ele reagir... rs rs rs...Mas me sinto no dever de dizer algo sobre, principalmente para falar daquilo para as gerações mais novas, que precisam saber o que é viver a experiência de ter sofrido nos calos, as dores de uma ditadura...
Eu era uma criança inocente quando a coisa estourou, tão inocente  que só vim a começar a ter consciência quando voltei pra Campo Maior em 1966 e comecei a conviver com o irmão Turuka. Turuka foi uma das pessoas visadas pelos militares, porque  tinha ligações com o pessoal das Ligas Camponesas, Luis Eduvirges, Totó Ribeiro e outros. Foi ele que avisou Luis Eduvirges, de que o Exército estava no seu encalço, para lhe prender... Trabalhei um ano na farmácia dele. Em 67, comecei a  trabalhar na prefeitura, no tempo do prefeito Raimundinho Andrade. Ali fiz parte dum negócio chamado Arena Jovem e andava pelas periferias da cidade convidando o povo a se matricular no Mobral, num carro de som, ao som de Dom e Ravel, autores do hit da época, Eu te amo, meu Brasil, um dos hinos da ditatura... Eu não tinha noção do que fazia e fazia mesmo por necessidade de ter um trabalho e sobreviver às minhas custas. Em 1970, fazendo o jornal "A luta", eu sofri uma agressão e  tive que me esconder por um tempo pra não ser morto, por ter escrito um artigo com o  título "O retrato da arrogância"... Em 1971, cheguei em Brasília com uma missão muito delicada: tirar um filho de um amigo daqui das influências de subversivos, gente ligada à luta armada... Aconteceu o contrário, o cara começou a fazer a minha cabeça e eu é que virei o subversivo que ainda sou... Hoje o cidadão é um pacato dono de um restaurante em Teresina, e eu sou o que sou...Em 72 eu fui  trabalhar no Banco do Brasil em São Paulo e ali convivi com uma garotada que estudava na USP e que acabou de fazer minha cabeça politicamente. Vivi ali no auge da repressão, morrendo de medo de ser preso e  torturado e morto e depois de dois anos naquele inferno ali eu me mandei pra cá em 74. Aqui ajudei a fundar o antigo MDB. Resumir cinquenta anos em tão poucas linhas não é fácil, mas vou ser seletivo.
 Casei, tive filhos, voltei pra Brasília, saí do Banco, descasei, voltei pra cá e hoje tou aqui rascunhando essas mau  traçadas pra lhes dizer simples e tão somente o seguinte: não foi fácil sobreviver a todas essas experiências, mas hoje quando eu vejo as pessoas inocentemente sentindo saudade de uma coisa que nem viveram, eu fico a meditar: de lá pra cá o mundo e o país pioraram, a miseria material e moral transbordam por todos os lados, a pobreza, a ignorância política, pessoas enlouquecendo e se matando pelas drogas, por um tenis de grife, por um carrão que nunca vão ter e eu no meio desse tiroteio pedindo a Deus que me poupe de tanto sofrimento, mas com a consciência de que vale a pena acreditar no bem, no amor e na tolerância pra justificar estarmos por aqui no cumprimento de uma missão...

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