domingo, 30 de março de 2014

“Não existem evidências de que Jango foi assassinado”, diz Flávio Tavares, ex-preso político



POR RODRIGO RODRIGUES

O jornalista Flávio Tavares é o que podemos chamar de 'testemunha ocular da história'. Foi o último jornalista a conversar com o ex-presidente João Goulart enquanto o mesmo esvaziava as gavetas do Palácio do Planalto, em fuga pela tomada do poder pelo militares em 01 de Abril de 1964.
É dele também o último retrato do guerrilheiro Ernesto Che Guevara com a família, durante um almoço no Uruguai, em 1961. Como poucos no mundo, teve durante 13 dias acesso privado à vida de Che, ainda hoje símbolo da rebeldia e resistência armada no mundo.
Tavares também estava entre os quinze prisioneiros políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick, seqüestrado em 1969 por integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 08 de Outubro (MR-8), no Rio.
O vôo dos presos políticos para o México, naquele setembro de 69, levou Tavares ao exílio. Sendo expulso a cada parada, morou no Uruguai e Argentina, e, por fim, se estabeleceu em Portugal. Mas mesmo expulso do Brasil, continuava escrevendo para os jornais “Última Hora” e “Estadão”, assinando com o pseudônimo de Júlio Delgado.
Dos tempos de rebeldia e luta armada, diz que não se arrepende de nada:
“Nas mesmas mesmas condições de opressão e desrespeito, eu repetiria tudo igualzinho. Com algumas correções de coisas que erramos, como na concepção de luta armada, na forma de não nos vincularmos ao povo”, revela.
No exílio na Argentina, Tavares foi vizinho de prédio de João Goulart, presenciando hábitos que o levam a defender que o ex-presidente deposto não foi assassinado pelos militares, como investiga a Comissão Nacional da Verdade (CNV):
“Não há nenhum indício de que a Ditadura tenha mandado matar, além daquele uruguaio que foi detido como preso comum no Rio Grande do Sul e inventou que era agente secreto da polícia uruguaia (…) O Jango não se cuidava do ponto de vista da alimentação. Era cardíaco. Já tinha tido um enfarto nos Estados Unidos. Fumava muito. Era um bom bebedor. Adorava fritura, carne gorda. Não tomava nenhum cuidado. Morreu porque tinha uma cardiopatia grave (…) A Comissão da Verdade encampou essa ideia da família do João Goulart e não percebeu que eles estão querendo é indenização. O que é uma coisa totalmente desonesta”, afirma o ex-guerrilheiro.
O faro jornalístico e a presença inloco nos acontecimentos levou Flávio Tavares e o filho, Camilo Tavares, a descobrirem provas documentais da participação dos Estados Unidos no Golpe de 1964.
A articulação dos norte-americanos para derrubar o governo de Jango pode ser conferido no belíssimo documentário “O Dia que durou 21 anos”, dirigido por Camilo e roteirizado por Flávio:
“Sem apoio dos Estados Unidos não teria havido golpe. Apenas uma sublevação, que teria sido dominadas pelos mecanismos da democracia (…) O apoio deles começou ostensivamente em 1962, em 30 de julho, quando o John F. Kennedy dá sinal verde para o embaixador no Brasil tramar uma infiltração e uma sublevação dentro das forças armadas”, relembra.
O documentário gerou o quinto livro de Flávio Tavares, que está sendo lançado em todo o Brasil neste mês de Abril, por ocasião dos 50 anos do Golpe Militar.
“1964: O Golpe” (Editora L&PM) já nasce um clássico. Por mesclar depoimentos pessoais de grandes personagens do golpe – por exemplo, as gravações do embaixador Lincoln Gordon e o presidente John F. Kennedy tramando o golpe no Brasil (entre outras conversas), e rica análise documental daqueles tempos.
As recordações do golpe, o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e as revelações do novo livro são os temas dessa entrevista ao Terra Magazine:

Qual o papel real do governo dos Estados Unidos no Golpe de 1964?
Sem apoio dos Estados Unidos não teria havido golpe. Apenas uma sublevação, que teriam sido dominadas pelos mecanismos da democracia. Como tinham sido dominadas outras quatro sublevações que ocorreram antes do golpe de 64. O apoio dos Estados Unidos não se resume ao envio da frota naval, no dia 31 de Março. O apoio deles começou ostensivamente em 1962, em 30 de julho, quando o presidente John F. Kennedy dá sinal verde para o embaixador no Brasil tramar uma infiltração e uma sublevação dentro das forças armadas. Fizeram isso enviando um adido militar que era amigo pessoal do general Castelo Branco desde o tempo em que ambos tiveram na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.

O senhor diz que a deposição do presidente João Goulart não se daria naquela madrugada, entre 31 e 1 de Abril de 1964. Por que ?
Porque o general Olímpio Mourão Filho se precipitou. Ele aproveitou aquela crise que teve na Marinha, em 25 de março daquele ano, e se precipitou enviado tropas ao Rio de Janeiro. Era do estilo dele, meio truculento. Tanto que ele era mal visto nas forças armadas e rompe a cúpula, quando se transformam em Ditadura. O golpe estava programado pra depois das chamadas “Marchas da Família, com Deus pela Liberdade”. A primeira foi em São Paulo, em 19 de Março daquele ano de 1964 e a segunda seria no Rio, no dia 02 de Abril, mas que se transformou na “marcha da vitória do golpe”.
Naquela noite, o próprio general Castelo Branco disse ao Mourão por telefone que o Jango tinha ainda apoio militar e que ele precisava minar um pouco mais o apoio, porque seria o fracasso do Mourão. Segundo o Castelo Branco, o possível fracasso poderia fortalecer mais o Jango, fazendo ele se perpetuar no poder. O que era uma grande mentira dos ditadores, porque naquela época não havia reeleição e, portanto, o Jango não poderia ficar além do mandato no poder. Ele pediu em telefone que o Mourão desistisse e recuasse, que voltasse da estrada de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Foi um apelo dramático. Depois outro general, chamado Corrêa de Farias fez o mesmo apelo governador de Minas, Magalhães Pinto. Porque eles tinham programado o golpe para o final de Abril, início de Maio. Eles quem: o grupo que conspirava com apoio e participação direta dos Estados Unidos.

O senhor é um dos poucos jornalistas do mundo que teve contato direto com o guerrilheiro Che Guevara. Vocês conversaram sobre o golpe que se deu no Brasil?
Meu encontro com o Che foi em 1961 em Punta del Leste, na Conferência Interamericana da ONU (Organização das Nações Unidas). Ainda era governo Jânio Quadros, poucos dias antes da renúncia, que se deu naquele ano mesmo. Quando o golpe aconteceu, o Che estava em Genebra, numa outra conferência das Nações Unidas. Soube que naquele dia ele chamou um diplomata brasileiro e perguntou 'como é que ficariam as coisas no Brasil'? O delegado brasileiro disse que o exército brasileiro não entraria nessa de golpe. Que o Mourão não era disso. Ou seja, ele deu uma informação do que ele achava que seria. Até o próprio Castelo Branco, que foi o primeiro ditador, “eleito” pelo Congresso já fraturado – sem suas grandes figuras, ele próprio não acreditava na capacidade do general Mourão de seguir adiante.

No dia exato do golpe o senhor foi o último jornalista que esteve com o Jango presidente. Como foi?
Quando o general Mourão se antecipa e manda as tropas para o Rio de Janeiro, eu estava em Brasília, onde era colunista político do jornal “Última Hora”. Único jornal que apoiava as reformas de base do governo João Goulart, e não apoiou o golpe e a derrubada do presidente. Dia 01 de Abril, quando o João Goulart sai de Brasília e vai para Porto Alegre, fui o último jornalista a falar com ele ainda presidente da República, no Palácio do Planalto. Ele arrumava papéis, esvaziava gavetas, praticamente em fuga. Nós é que não percebemos naquele momento. Nesse novo livro reproduzo o diálogo completo, apesar do Jango ser um homem de falar pouco. Ele não era um homem loquaz [falador]. Naquele dia menos ainda. Mas ele disse que instalaria o governo no Rio Grande do Sul e que tinha acabado de falar com o comandante do 3o Exército. Ele dizia que estava disposto a resistir e faria isso com o apoio do 3o Exército.

O senhor diz que o Jango não foi assassinado, como investiga a Comissão da Verdade, que resolveu exumar o corpo para análise. Baseado em que?
Não existem evidências de que o Jango foi assassinado. Em Buenos Aires eu morava praticamente ao lado do prédio onde ele morava, separado apenas por um outro prédio. Na parte final do meu exílio em Buenos Aires, meu escritório ficava na mesma avenida em que o João Goulart tinha escritório. Convivi horizontalmente com ele na cidade, porque éramos ambos exilados políticos. E o Jango não se cuidava do ponto de vista da alimentação. Era cardíaco. Já tinha tido um enfarto nos Estados Unidos. Viajou para o México, onde fez uma escala de três dias nos EUA e lá teve um enfarte. Isso em 1972. Ele fumava muito. Era um bom bebedor de whisky no final das tardes, apesar de não ser um bêbado. Naquela época, todos bebiam como ele, que também comia desregradamente. Adorava fritura, carne gorda. Não tomava nenhum cuidado. Ele morreu porque tinha uma cardiopatia grave.

Diante das evidências, não é preciso averiguar?
Não há nenhum indício de que a Ditadura tenha mandado matar o Jango, além daquele uruguaio que fora detido como preso comum no Rio Grande do Sul e inventou que era agente secreto da polícia uruguaia. Ele disse que colocou um comprimido com veneno na bebida do Jango. É uma coisa que ele viu em filme de agentes secretos. Pelo que soube, ele nunca foi do serviço secreto uruguaio. Ele era motorista da polícia uruguaia. Seria muito difícil os uruguaios chamarem um motorista para fazer esse serviço. No depoimento ele conta coisas estapafúrdias do tipo, 'o Geisel e o Médici me telefonavam'. Ora, você acha que o Geisel ou o Médice, presidentes da República, iriam ligar pessoalmente para o chefe da polícia no Uruguai? Ele dizia que o delegado Fleury telefonava para ele. Ora, o Fleury era um facínora, mas um facínora inteligente. Jamais iria ligar pra dizer 'olha, precisa eliminar o João Goulart'. Não por telefone. Ditadura nenhuma trabalha assim. A morte do Jango foi por causas naturais. Eu digo sempre, há tantos crimes reais e concretos da Ditadura que passaram à história, que não precisamos fantasiar mais um, como o assassinato do Jango ou do Juscelino Kubtischeck.

Mas por quê a Comissão da Verdade embarcou nessa?
Quando a Comissão da Verdade encampou essa ideia da família do João Goulart, não percebeu que os familiares estão querendo é indenização. O que é uma coisa totalmente desonesta. Eles estão perdendo tempo, quando deveriam estar se aprofundando em coisas com evidências muito mais profundas que aconteceram naquele tempo. Posso estar errado e essa perícia feita na exumação do corpo pode me corrigir, mas por hora não há evidências claras de que o Jango tenha sido assassinado. Até essa perícia é muito difícil, já que já fazem trinta e tantos anos que o Jango morreu. O fato de beber e fumar muito, são marcas que ficam no DNA. Pode aparecer isso no exame, mas não o tal veneno que o uruguaio diz que colocou. Existem pessoas que querem ser notórias por qualquer coisa. Até em “sou o maior ladrão”, o “maior seqüestrador do mundo”. Acho que se trata de um paranóico da mesma linha.

Mas então como o senhor avalia o trabalho da Comissão da Verdade?
A Comissão da Verdade tem que ir a fundo. Mas não sei se está indo ou não. Eu, por exemplo, acho que tenho um grande depoimento a dar à comissão. Em parte está contido naquele meu livro, “Memórias do Esquecimento”. Mas eles nunca se interessaram em me ouvir ou me chamar. No livro não dei nome de ninguém, falei dos torturadores mas não citei nomes. Tenho informações e documentos que podem ajudar muito o trabalho deles. Mas isso não invalida a importância dela, porque é o mecanismo que temos para saber o que de fato aconteceu neste País. Mas não pode perder tempo com exumação do corpo do João Goulart, por exemplo, sem evidências claras.

Tanto tempo depois, a revisão da 'Lei da Anistia' ainda é necessária?
Acho que não é necessário. Com um trabalho bem feito na Comissão da Verdade, os crimes revelados se transformam de fato em punição. O coronel Brilhante Ustra já foi punido pela Justiça brasileira quando se declarou torturador. É o caminho a se seguir. A opinião pública precisa saber o que ele e os outros torturadores fizeram. Os atuais companheiros das Forças Armadas precisam saber o que eles fizeram no passado. A verdade substitui as penas. Podemos repetir aqui o que aconteceu na África do Sul, onde houve um regime brutal de apartheid e os responsável fizeram a confissão pública. Não é que eu seja contra ou a favor. Pode até ser revista a lei. Mas se a Comissão da Verdade se aprofundar, isso pode acontecer aqui. A verdade substituir a Justiça.

O senhor era um jornalista conceituado em Brasília antes do golpe. Por que decidiu entrar para a luta armada?
A decisão veio quando vi que o Jornalismo e o Parlamento funcionavam apenas como biombo para a Ditadura. Não havia outra forma de tentar desmascarar os militares do que desafiar a Ditadura. Mais com uma visão moral do que política, aderi a luta armada. A nossa decisão pode ter sido errada. Erramos tantos que perdemos a luta armada. Militarmente fomos derrotados. Mas foi um ato generoso e de rebeldia em dizer 'Não' àquela coisa toda, quando todo o resto abaixava a cabeça, se escondia debaixo da cama e fingia que nada estava acontece. Foi um gesto generoso de se arriscar, porque a Ditadura era tecnologicamente muito superior a nós. Tinha rádio, TV, jornal e todo um aparato tecnológico e social que nós não tínhamos. Eles tinham armas pesadas, apoio dos Estados Unidos. E nós não. Mas historicamente nós vencemos. 50 anos depois nós falamos da Ditadura sem medo. É uma vitória histórica e moral.

Qual foi a sensação de saber que seria trocado pelo embaixador americano seqüestrado naquela época?
Foi uma sensação muito estranha. Se por um lado tinha uma alegria de sair da tortura. Estava no vigésimo nono dia de prisão sendo torturado. Não tinha movimento na parte direita inteira do corpo, onde não podia nem escrever o meu nome. Por outro lado, sento muito medo que eles nos fizessem alguma coisa. Porque fiquei sabendo do seqüestro casualmente, pelo rádio do cabo da guarda. Passou um dia, não aconteceu nada. Depois mais meio dia e nada. Eu pensava, 'uai. O que será que vão fazer com a gente?'. Até que trinta e seis horas depois do seqüestro, mais um ou menos, eles nos tiram do cárcere e nos levam para o aeroporto.


50 anos depois, o que fica para o Brasil daquela experiência?
Primeiro fica a visão de que isso nunca mais deve se repetir, pela dignidade dos brasileiros, muito mais do que noção de política ou democracia. Agora, fica também que nós temos que a cada dia que devemos denunciar tudo que está acontecendo. Não podemos renunciar a nossa capacidade de denúncia. Seja da corrupção que é cada dia mais desenfreada, em todas as escadas, federal, estadual ou municipal. E que está disseminada em todos os partidos, sem exceção. O grande ensinamento é que nós não devemos continuar ativos e vigilantes.

Depois de passar três vezes pela prisão, ser expulso do Brasil e torturado dias a fio, o senhor repetiria aquilo novamente?
Nas mesmas mesmas condições de opressão e desrespeito, eu repetiria tudo igualzinho. Com algumas correções de coisas que erramos, como na concepção de luta armada, na forma de não nos vincularmos ao povo, etc. Mas hoje não tenho o vigor que tinha quando naquela época, estava exibindo o auge dos meus trinta anos.

O que fica de lição para a imprensa brasileira daquele golpe ?
Cinqüenta anos atrás a imprensa ajudou a criar uma confusão na opinião pública, que levou muitos setores a apoiarem o golpe militar. Não queriam a opressão, mas diziam que a opressão estava entre os que estavam no governo Jango. Hoje, o que me chama a atenção no Brasil é que a chamada grande imprensa continue muito temente a penetrar em certos assuntos e temas. É uma imprensa que continua muito fechada para os movimentos sociais e reservada a pequenos círculos sociais. Naquela época, antes de 1964, havia uma coluna no jornal “Última Hora” com várias páginas abertas ao movimento sindical e aos trabalhadores. Era um jornal inovador por isso, porque mantinha a coluna social falando dos ricos, mas era um jornal muito mais aberto do que todos que existem hoje. Nos dias atuais, é uma imprensa que reflete apenas a opinião de um pequeno grupo de brasileiros. Mas, apesar disso, ainda é o único respiradouro que temos para as denúncias de corrupção e violações dos Direitos Humanos. Não se pode perder isso de vista. Mas ainda é muito pouco.

“1964: O Golpe” (Editora L&PM) 
Reportagem / 320 páginas / R$44,90 
Lançamento: Rio – 08/04 e Sp – 16/04 (Livraria Cultura – Av. Paulista)

O documentário "O Dia que durou 21 anos", dirigido por Camilo Tavares, foi ao ar como programa especial pela TV Brasil em três episódios e está disponível na internet.

Extraído do Terramagazine

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