POR RODRIGO RODRIGUES
O
jornalista Flávio Tavares é o que podemos chamar de 'testemunha ocular da
história'. Foi o último jornalista a conversar com o ex-presidente João Goulart
enquanto o mesmo esvaziava as gavetas do Palácio do Planalto, em fuga pela
tomada do poder pelo militares em 01 de Abril de 1964.
É dele
também o último retrato do guerrilheiro Ernesto Che Guevara com a família,
durante um almoço no Uruguai, em 1961. Como poucos no mundo, teve durante 13
dias acesso privado à vida de Che, ainda hoje símbolo da rebeldia e resistência
armada no mundo.
Tavares
também estava entre os quinze prisioneiros políticos trocados pelo embaixador
norte-americano Charles Elbrick, seqüestrado em 1969 por integrantes da Ação
Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 08 de Outubro (MR-8),
no Rio.
O vôo dos
presos políticos para o México, naquele setembro de 69, levou Tavares ao
exílio. Sendo expulso a cada parada, morou no Uruguai e Argentina, e, por fim,
se estabeleceu em Portugal. Mas mesmo expulso do Brasil, continuava escrevendo
para os jornais “Última Hora” e “Estadão”, assinando com o pseudônimo de Júlio
Delgado.
Dos
tempos de rebeldia e luta armada, diz que não se arrepende de nada:
“Nas
mesmas mesmas condições de opressão e desrespeito, eu repetiria tudo
igualzinho. Com algumas correções de coisas que erramos, como na concepção de
luta armada, na forma de não nos vincularmos ao povo”, revela.
No exílio
na Argentina, Tavares foi vizinho de prédio de João Goulart, presenciando
hábitos que o levam a defender que o ex-presidente deposto não foi assassinado
pelos militares, como investiga a Comissão Nacional da Verdade (CNV):
“Não há
nenhum indício de que a Ditadura tenha mandado matar, além daquele uruguaio que
foi detido como preso comum no Rio Grande do Sul e inventou que era agente
secreto da polícia uruguaia (…) O Jango não se cuidava do ponto de vista da
alimentação. Era cardíaco. Já tinha tido um enfarto nos Estados Unidos. Fumava
muito. Era um bom bebedor. Adorava fritura, carne gorda. Não tomava nenhum
cuidado. Morreu porque tinha uma cardiopatia grave (…) A Comissão da Verdade
encampou essa ideia da família do João Goulart e não percebeu que eles estão
querendo é indenização. O que é uma coisa totalmente desonesta”, afirma o
ex-guerrilheiro.
O faro
jornalístico e a presença inloco nos acontecimentos levou Flávio Tavares
e o filho, Camilo Tavares, a descobrirem provas documentais da participação dos
Estados Unidos no Golpe de 1964.
A
articulação dos norte-americanos para derrubar o governo de Jango pode ser
conferido no belíssimo documentário “O Dia que durou 21 anos”, dirigido por
Camilo e roteirizado por Flávio:
“Sem
apoio dos Estados Unidos não teria havido golpe. Apenas uma sublevação, que
teria sido dominadas pelos mecanismos da democracia (…) O apoio deles começou
ostensivamente em 1962, em 30 de julho, quando o John F. Kennedy dá sinal verde
para o embaixador no Brasil tramar uma infiltração e uma sublevação dentro das
forças armadas”, relembra.
O
documentário gerou o quinto livro de Flávio Tavares, que está sendo lançado em
todo o Brasil neste mês de Abril, por ocasião dos 50 anos do Golpe Militar.
“1964: O
Golpe” (Editora L&PM) já nasce um clássico. Por mesclar depoimentos
pessoais de grandes personagens do golpe – por exemplo, as gravações do
embaixador Lincoln Gordon e o presidente John F. Kennedy tramando o golpe no
Brasil (entre outras conversas), e rica análise documental daqueles tempos.
As
recordações do golpe, o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e as
revelações do novo livro são os temas dessa entrevista ao Terra Magazine:
Qual o
papel real do governo dos Estados Unidos no Golpe de 1964?
Sem apoio
dos Estados Unidos não teria havido golpe. Apenas uma sublevação, que teriam
sido dominadas pelos mecanismos da democracia. Como tinham sido dominadas
outras quatro sublevações que ocorreram antes do golpe de 64. O apoio dos
Estados Unidos não se resume ao envio da frota naval, no dia 31 de Março. O
apoio deles começou ostensivamente em 1962, em 30 de julho, quando o presidente
John F. Kennedy dá sinal verde para o embaixador no Brasil tramar uma
infiltração e uma sublevação dentro das forças armadas. Fizeram isso enviando
um adido militar que era amigo pessoal do general Castelo Branco desde o tempo
em que ambos tiveram na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.
O senhor
diz que a deposição do presidente João Goulart não se daria naquela madrugada,
entre 31 e 1 de Abril de 1964. Por que ?
Porque o
general Olímpio Mourão Filho se precipitou. Ele aproveitou aquela crise que
teve na Marinha, em 25 de março daquele ano, e se precipitou enviado tropas ao
Rio de Janeiro. Era do estilo dele, meio truculento. Tanto que ele era mal
visto nas forças armadas e rompe a cúpula, quando se transformam em Ditadura. O
golpe estava programado pra depois das chamadas “Marchas da Família, com Deus
pela Liberdade”. A primeira foi em São Paulo, em 19 de Março daquele ano de 1964
e a segunda seria no Rio, no dia 02 de Abril, mas que se transformou na “marcha
da vitória do golpe”.
Naquela
noite, o próprio general Castelo Branco disse ao Mourão por telefone que o Jango
tinha ainda apoio militar e que ele precisava minar um pouco mais o apoio,
porque seria o fracasso do Mourão. Segundo o Castelo Branco, o possível
fracasso poderia fortalecer mais o Jango, fazendo ele se perpetuar no poder. O
que era uma grande mentira dos ditadores, porque naquela época não havia
reeleição e, portanto, o Jango não poderia ficar além do mandato no poder. Ele
pediu em telefone que o Mourão desistisse e recuasse, que voltasse da estrada
de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Foi um apelo dramático. Depois outro general,
chamado Corrêa de Farias fez o mesmo apelo governador de Minas, Magalhães
Pinto. Porque eles tinham programado o golpe para o final de Abril, início de
Maio. Eles quem: o grupo que conspirava com apoio e participação direta dos
Estados Unidos.
O senhor
é um dos poucos jornalistas do mundo que teve contato direto com o guerrilheiro
Che Guevara. Vocês conversaram sobre o golpe que se deu no Brasil?
Meu
encontro com o Che foi em 1961 em Punta del Leste, na Conferência
Interamericana da ONU (Organização das Nações Unidas). Ainda era governo Jânio
Quadros, poucos dias antes da renúncia, que se deu naquele ano mesmo. Quando o
golpe aconteceu, o Che estava em Genebra, numa outra conferência das Nações
Unidas. Soube que naquele dia ele chamou um diplomata brasileiro e perguntou
'como é que ficariam as coisas no Brasil'? O delegado brasileiro disse que o
exército brasileiro não entraria nessa de golpe. Que o Mourão não era disso. Ou
seja, ele deu uma informação do que ele achava que seria. Até o próprio Castelo
Branco, que foi o primeiro ditador, “eleito” pelo Congresso já fraturado – sem
suas grandes figuras, ele próprio não acreditava na capacidade do general
Mourão de seguir adiante.
No dia
exato do golpe o senhor foi o último jornalista que esteve com o Jango
presidente. Como foi?
Quando o
general Mourão se antecipa e manda as tropas para o Rio de Janeiro, eu estava
em Brasília, onde era colunista político do jornal “Última Hora”. Único jornal
que apoiava as reformas de base do governo João Goulart, e não apoiou o golpe e
a derrubada do presidente. Dia 01 de Abril, quando o João Goulart sai de
Brasília e vai para Porto Alegre, fui o último jornalista a falar com ele ainda
presidente da República, no Palácio do Planalto. Ele arrumava papéis, esvaziava
gavetas, praticamente em fuga. Nós é que não percebemos naquele momento. Nesse
novo livro reproduzo o diálogo completo, apesar do Jango ser um homem de falar
pouco. Ele não era um homem loquaz [falador]. Naquele dia menos ainda. Mas ele
disse que instalaria o governo no Rio Grande do Sul e que tinha acabado de
falar com o comandante do 3o Exército. Ele dizia que estava disposto a resistir
e faria isso com o apoio do 3o Exército.
O senhor
diz que o Jango não foi assassinado, como investiga a Comissão da Verdade, que
resolveu exumar o corpo para análise. Baseado em que?
Não
existem evidências de que o Jango foi assassinado. Em Buenos Aires eu morava
praticamente ao lado do prédio onde ele morava, separado apenas por um outro
prédio. Na parte final do meu exílio em Buenos Aires, meu escritório ficava na
mesma avenida em que o João Goulart tinha escritório. Convivi horizontalmente
com ele na cidade, porque éramos ambos exilados políticos. E o Jango não se
cuidava do ponto de vista da alimentação. Era cardíaco. Já tinha tido um
enfarto nos Estados Unidos. Viajou para o México, onde fez uma escala de três
dias nos EUA e lá teve um enfarte. Isso em 1972. Ele fumava muito. Era um bom
bebedor de whisky no final das tardes, apesar de não ser um bêbado. Naquela
época, todos bebiam como ele, que também comia desregradamente. Adorava
fritura, carne gorda. Não tomava nenhum cuidado. Ele morreu porque tinha uma
cardiopatia grave.
Diante
das evidências, não é preciso averiguar?
Não há
nenhum indício de que a Ditadura tenha mandado matar o Jango, além daquele uruguaio
que fora detido como preso comum no Rio Grande do Sul e inventou que era agente
secreto da polícia uruguaia. Ele disse que colocou um comprimido com veneno na
bebida do Jango. É uma coisa que ele viu em filme de agentes secretos. Pelo que
soube, ele nunca foi do serviço secreto uruguaio. Ele era motorista da polícia
uruguaia. Seria muito difícil os uruguaios chamarem um motorista para fazer
esse serviço. No depoimento ele conta coisas estapafúrdias do tipo, 'o Geisel e
o Médici me telefonavam'. Ora, você acha que o Geisel ou o Médice, presidentes
da República, iriam ligar pessoalmente para o chefe da polícia no Uruguai? Ele
dizia que o delegado Fleury telefonava para ele. Ora, o Fleury era um facínora,
mas um facínora inteligente. Jamais iria ligar pra dizer 'olha, precisa
eliminar o João Goulart'. Não por telefone. Ditadura nenhuma trabalha assim. A
morte do Jango foi por causas naturais. Eu digo sempre, há tantos crimes reais
e concretos da Ditadura que passaram à história, que não precisamos fantasiar
mais um, como o assassinato do Jango ou do Juscelino Kubtischeck.
Mas por
quê a Comissão da Verdade embarcou nessa?
Quando a
Comissão da Verdade encampou essa ideia da família do João Goulart, não
percebeu que os familiares estão querendo é indenização. O que é uma coisa
totalmente desonesta. Eles estão perdendo tempo, quando deveriam estar se
aprofundando em coisas com evidências muito mais profundas que aconteceram
naquele tempo. Posso estar errado e essa perícia feita na exumação do corpo
pode me corrigir, mas por hora não há evidências claras de que o Jango tenha
sido assassinado. Até essa perícia é muito difícil, já que já fazem trinta e
tantos anos que o Jango morreu. O fato de beber e fumar muito, são marcas que
ficam no DNA. Pode aparecer isso no exame, mas não o tal veneno que o uruguaio
diz que colocou. Existem pessoas que querem ser notórias por qualquer coisa.
Até em “sou o maior ladrão”, o “maior seqüestrador do mundo”. Acho que se trata
de um paranóico da mesma linha.
Mas então
como o senhor avalia o trabalho da Comissão da Verdade?
A
Comissão da Verdade tem que ir a fundo. Mas não sei se está indo ou não. Eu,
por exemplo, acho que tenho um grande depoimento a dar à comissão. Em parte
está contido naquele meu livro, “Memórias do Esquecimento”. Mas eles nunca se
interessaram em me ouvir ou me chamar. No livro não dei nome de ninguém, falei
dos torturadores mas não citei nomes. Tenho informações e documentos que podem
ajudar muito o trabalho deles. Mas isso não invalida a importância dela, porque
é o mecanismo que temos para saber o que de fato aconteceu neste País. Mas não
pode perder tempo com exumação do corpo do João Goulart, por exemplo, sem
evidências claras.
Tanto
tempo depois, a revisão da 'Lei da Anistia' ainda é necessária?
Acho que
não é necessário. Com um trabalho bem feito na Comissão da Verdade, os crimes
revelados se transformam de fato em punição. O coronel Brilhante Ustra já foi
punido pela Justiça brasileira quando se declarou torturador. É o caminho a se
seguir. A opinião pública precisa saber o que ele e os outros torturadores
fizeram. Os atuais companheiros das Forças Armadas precisam saber o que eles
fizeram no passado. A verdade substitui as penas. Podemos repetir aqui o que
aconteceu na África do Sul, onde houve um regime brutal de apartheid e os
responsável fizeram a confissão pública. Não é que eu seja contra ou a favor.
Pode até ser revista a lei. Mas se a Comissão da Verdade se aprofundar, isso
pode acontecer aqui. A verdade substituir a Justiça.
O senhor
era um jornalista conceituado em Brasília antes do golpe. Por que decidiu
entrar para a luta armada?
A decisão
veio quando vi que o Jornalismo e o Parlamento funcionavam apenas como biombo
para a Ditadura. Não havia outra forma de tentar desmascarar os militares do que
desafiar a Ditadura. Mais com uma visão moral do que política, aderi a luta
armada. A nossa decisão pode ter sido errada. Erramos tantos que perdemos a
luta armada. Militarmente fomos derrotados. Mas foi um ato generoso e de
rebeldia em dizer 'Não' àquela coisa toda, quando todo o resto abaixava a
cabeça, se escondia debaixo da cama e fingia que nada estava acontece. Foi um
gesto generoso de se arriscar, porque a Ditadura era tecnologicamente muito
superior a nós. Tinha rádio, TV, jornal e todo um aparato tecnológico e social
que nós não tínhamos. Eles tinham armas pesadas, apoio dos Estados Unidos. E
nós não. Mas historicamente nós vencemos. 50 anos depois nós falamos da
Ditadura sem medo. É uma vitória histórica e moral.
Qual foi
a sensação de saber que seria trocado pelo embaixador americano seqüestrado
naquela época?
Foi uma
sensação muito estranha. Se por um lado tinha uma alegria de sair da tortura.
Estava no vigésimo nono dia de prisão sendo torturado. Não tinha movimento na
parte direita inteira do corpo, onde não podia nem escrever o meu nome. Por
outro lado, sento muito medo que eles nos fizessem alguma coisa. Porque fiquei
sabendo do seqüestro casualmente, pelo rádio do cabo da guarda. Passou um dia,
não aconteceu nada. Depois mais meio dia e nada. Eu pensava, 'uai. O que será
que vão fazer com a gente?'. Até que trinta e seis horas depois do seqüestro,
mais um ou menos, eles nos tiram do cárcere e nos levam para o aeroporto.
50 anos
depois, o que fica para o Brasil daquela experiência?
Primeiro
fica a visão de que isso nunca mais deve se repetir, pela dignidade dos
brasileiros, muito mais do que noção de política ou democracia. Agora, fica
também que nós temos que a cada dia que devemos denunciar tudo que está
acontecendo. Não podemos renunciar a nossa capacidade de denúncia. Seja da
corrupção que é cada dia mais desenfreada, em todas as escadas, federal,
estadual ou municipal. E que está disseminada em todos os partidos, sem
exceção. O grande ensinamento é que nós não devemos continuar ativos e
vigilantes.
Depois de
passar três vezes pela prisão, ser expulso do Brasil e torturado dias a fio, o
senhor repetiria aquilo novamente?
Nas
mesmas mesmas condições de opressão e desrespeito, eu repetiria tudo
igualzinho. Com algumas correções de coisas que erramos, como na concepção de
luta armada, na forma de não nos vincularmos ao povo, etc. Mas hoje não tenho o
vigor que tinha quando naquela época, estava exibindo o auge dos meus trinta
anos.
O que
fica de lição para a imprensa brasileira daquele golpe ?
Cinqüenta
anos atrás a imprensa ajudou a criar uma confusão na opinião pública, que levou
muitos setores a apoiarem o golpe militar. Não queriam a opressão, mas diziam
que a opressão estava entre os que estavam no governo Jango. Hoje, o que me
chama a atenção no Brasil é que a chamada grande imprensa continue muito
temente a penetrar em certos assuntos e temas. É uma imprensa que continua
muito fechada para os movimentos sociais e reservada a pequenos círculos
sociais. Naquela época, antes de 1964, havia uma coluna no jornal “Última Hora”
com várias páginas abertas ao movimento sindical e aos trabalhadores. Era um
jornal inovador por isso, porque mantinha a coluna social falando dos ricos,
mas era um jornal muito mais aberto do que todos que existem hoje. Nos dias
atuais, é uma imprensa que reflete apenas a opinião de um pequeno grupo de
brasileiros. Mas, apesar disso, ainda é o único respiradouro que temos para as
denúncias de corrupção e violações dos Direitos Humanos. Não se pode perder
isso de vista. Mas ainda é muito pouco.
“1964: O
Golpe” (Editora L&PM)
Reportagem
/ 320 páginas / R$44,90
Lançamento:
Rio – 08/04 e Sp – 16/04 (Livraria Cultura – Av. Paulista)
O
documentário "O Dia que durou 21 anos", dirigido por Camilo Tavares,
foi ao ar como programa especial pela TV Brasil em três episódios e está
disponível na internet.
Extraído do
Terramagazine

Nenhum comentário:
Postar um comentário