sábado, 29 de março de 2014

Há cinquenta anos eu morava em Teresina e começava a trabalhar...

 Já fazia um ano que eu trabalhava na firma Neves & Cia, ali na esquina da 13 de maio com a Álvaro Mendes. Morava numa pensão familiar (depois de  ter passado por umas não tão ali pela estação do trem...) na rua Clodoaldo Freitas, perto da Miguel Rosa. Saia dali ziguezagueando por aquelas ruas à pé por volta de sete da manhã, pra entrar às 7 e meia. Quando vou entrando na rua Desembargador Freitas, um soldado do exército com um fuzil de baioneta, me impede de passar, dizendo que a rua estava interditada.
Eu nessa época não me ligava muito em política, depois dos anos em Recife onde vi a ascenção de Miguel Arraes, que era prefeito quando eu lá cheguei e depois foi eleito governador e mesmo sem querer, respirava a política que se respirava na capital pernambucana, ou seja, meu pai e alguns amigos simpatizantes do que se considerava esquerda naqueles anos do pré-golpe... Nessa época eu só lia mesmo futebol, jogava minhas peladinhas e acompanhava tudo pelo rádio...
 Até chegar no trabalho fiquei sabendo por que o  exército ocupava pontos estratégicos da capital piauiense... 
No trabalho se dizia quem tinha sido preso ou seria daqui a horas... Tinha um parente que estudava direito na faculdade ali onde hoje é a biblioteca municipal na praça do Fripisa... Ele estava assustado porque tinha muito livro subversivo, conhecia muita gente que tinha sido preso, e tava querendo que eu ajudasse ele a enterrar no chão do quintal, os livros que ele achava que poderiam lhe criar problemas se fossem descoberto em sua biblioteca... Paranóia comendo solto, eu não entendia pra que tanto alvoroço... Fiquei sabendo de parentes que tinham sido presos... Aí fiquei assustado... 
Bom, até aqui é o que eu me lembro exatamente no primeiro dia da chamada "revolução" que tinha sido deflagrada justo no dia da mentira, 1º de abril... De lá pra cá eu consigo escrever até um livro sobre esses primeiros dias da "redentora", de tanto que eu li sobre...mas aí já perde a graça... Esse é o primeiro relato que publico pra matéria  especial que estou fazendo pro blog, pra rádio e pro jornal, com depoimentos de pessoas como Sargento Loiola e Luis Eduvirges, que viveram mais intensamente aqueles dias...

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