Tenho
me posicionado aqui várias vezes sobre o tema da inflação. Na maioria das vezes
na contramão dos analistas mais consultados em folhas e telas cotidianas,
sobretudo quando economistas-chefes de instituições financeiras.
Seus
alardes na mídia servem a interesses outros, já que o remédio indicado pouco
sai da elevação da taxa de juros. Há os mais cruéis, que pedem aumentar o
desemprego, diminuir a renda vinda do trabalho, ou cortar os gastos públicos
sociais.
Mas
por que os grandes grupos de mídia compram fácil esse terrorismo? Apenas porque
são de oposição? Não. Eles vêm há anos enxugando e “estagiarizando” suas
Redações, e se espreguiçando num modelo carcomido de divulgação.
Sim,
é preciso sempre estar de olho na inflação, mas supô-la descontrolada, hoje, no
Brasil, é falácia.
Ainda
no ano passado, escrevi que não havia o menor fundamento para que as
commodities agrícolas continuassem subindo, e que nem mesmo iriam permanecer nos
patamares em que estavam.
Folhas
e telas, agora, anunciam a queda como se nunca tivessem nos aterrorizado com o
contrário.
Peço
auxílio a artigo publicado ontem, na Folha de São Paulo, assinado pelo
jornalista Janio de Freitas.
Velhas ideias
Por
Janio de Freitas, da Folha de São Paulo
O
terrorismo do noticiário econômico martela; não sei dizer se o governo está
aturdido com isso
Liguei
o rádio no carro. Entrou de sola: "é crucial e não é bom!". Um susto.
O que seria assim dramático? A caminho do almoço, o susto devorou o apetite.
Claro, era mais um dado da realidade terrível que o Brasil vive. As vendas no
comércio de varejo, no primeiro trimestre ou lá quando seja, caíram a
barbaridade de 0,1%.
O
comércio vendeu, no período, menos R$ 0,10 em cada R$ 100. Pois é, crucial e
nada bom.
Os
preços, como o seu e o meu bolso sabem, vêm subindo à vontade há tempos, o que
fez com que o comércio precisasse vender muito menos produtos para completar
cada R$ 99,90 do que, na comparação com o passado, precisara para vender R$
100. Mas, na hora, não tive tempo de salvar o apetite com esse raciocínio,
porque à primeira desgraça emendava-se a notícia de outra. A queda desanimadora
nas vendas para o Dia das Mães, comparadas com 2012: queda de 1%.
É
preciso lembrar o quanto os consumidores encararam em aumentos de preços de um
ano para cá? O comércio brasileiro está lucrando formidavelmente, com o maior
poder aquisitivo das classes C, D e E, aplicado na compra dos tênis aos
eletrodomésticos, dos móveis às motos, quando não aos carros.
O
terrorismo do noticiário e dos comentários econômicos martela o dia todo. Não
sei dizer se o governo está aturdido com isso, como parece das tão repetidas
quanto inconvincentes tranquilizações do ministro Guido Mantega. Ou se comete o
erro, por soberba ou por ingenuidade, de enfrentar a campanha que está, sim,
fazendo opinião.
Daí
que me permito duas sugestões, se v. quer elementos para formar sua própria
opinião. O primeiro é a leitura, disponível no site da Folha
(folha.com/no1278158), de um artigo muito importante, publicado no caderno
"Mercado" de terça-feira. Seu autor é Bráulio Borges, mais um
economista que escreve em português (um dia chegaremos à primeira dúzia).
Em
"Pós-crise de 2008, debate mundial começa a reavaliar velhas ideias'",
Borges mostra que as cabeças mais relevantes da "ciência econômica"
estão derrubando as teses de política econômica ainda predominantes e adotadas
pelos economistas e outros contra as linhas básicas da política econômica no
Brasil.
A
outra sugestão é para que v. comece bem as quartas-feiras. Se lhe ficam ainda
reservas vindas de longe, releve-as e leia os artigos em que Delfim Netto tem
dito muito do que precisa ser dito para fazermos ideia de onde e como estamos,
de fato. Descontados, pois, terrorismos e eleitorismos. Ou, no caso, são a
mesma coisa?
E
como crucial vem de cruz, não se esqueça: enquanto o papa Francisco não chega,
reze pelos nossos comerciantes, para que recuperem suas perdas.
Rui Daher
Administrador de empresas, consultor da Biocampo
Desenvolvimento Agrícola, produtor rural. Trabalhou por mais de 30 anos em
empresas do agronegócio. rui_daher@terra.com.br
Extraído do terramagazine
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