domingo, 19 de maio de 2013

Poucos percebem o terrorismo da mídia com a inflação

Tenho me posicionado aqui várias vezes sobre o tema da inflação. Na maioria das vezes na contramão dos analistas mais consultados em folhas e telas cotidianas, sobretudo quando economistas-chefes de instituições financeiras.
Seus alardes na mídia servem a interesses outros, já que o remédio indicado pouco sai da elevação da taxa de juros. Há os mais cruéis, que pedem aumentar o desemprego, diminuir a renda vinda do trabalho, ou cortar os gastos públicos sociais.
Mas por que os grandes grupos de mídia compram fácil esse terrorismo? Apenas porque são de oposição? Não. Eles vêm há anos enxugando e “estagiarizando” suas Redações, e se espreguiçando num modelo carcomido de divulgação.
Sim, é preciso sempre estar de olho na inflação, mas supô-la descontrolada, hoje, no Brasil, é falácia.
Ainda no ano passado, escrevi que não havia o menor fundamento para que as commodities agrícolas continuassem subindo, e que nem mesmo iriam permanecer nos patamares em que estavam.
Folhas e telas, agora, anunciam a queda como se nunca tivessem nos aterrorizado com o contrário.
Peço auxílio a artigo publicado ontem, na Folha de São Paulo, assinado pelo jornalista Janio de Freitas.
Velhas ideias
Por Janio de Freitas, da Folha de São Paulo
O terrorismo do noticiário econômico martela; não sei dizer se o governo está aturdido com isso
Liguei o rádio no carro. Entrou de sola: "é crucial e não é bom!". Um susto. O que seria assim dramático? A caminho do almoço, o susto devorou o apetite. Claro, era mais um dado da realidade terrível que o Brasil vive. As vendas no comércio de varejo, no primeiro trimestre ou lá quando seja, caíram a barbaridade de 0,1%.
O comércio vendeu, no período, menos R$ 0,10 em cada R$ 100. Pois é, crucial e nada bom.
Os preços, como o seu e o meu bolso sabem, vêm subindo à vontade há tempos, o que fez com que o comércio precisasse vender muito menos produtos para completar cada R$ 99,90 do que, na comparação com o passado, precisara para vender R$ 100. Mas, na hora, não tive tempo de salvar o apetite com esse raciocínio, porque à primeira desgraça emendava-se a notícia de outra. A queda desanimadora nas vendas para o Dia das Mães, comparadas com 2012: queda de 1%.
É preciso lembrar o quanto os consumidores encararam em aumentos de preços de um ano para cá? O comércio brasileiro está lucrando formidavelmente, com o maior poder aquisitivo das classes C, D e E, aplicado na compra dos tênis aos eletrodomésticos, dos móveis às motos, quando não aos carros.
O terrorismo do noticiário e dos comentários econômicos martela o dia todo. Não sei dizer se o governo está aturdido com isso, como parece das tão repetidas quanto inconvincentes tranquilizações do ministro Guido Mantega. Ou se comete o erro, por soberba ou por ingenuidade, de enfrentar a campanha que está, sim, fazendo opinião.
Daí que me permito duas sugestões, se v. quer elementos para formar sua própria opinião. O primeiro é a leitura, disponível no site da Folha (folha.com/no1278158), de um artigo muito importante, publicado no caderno "Mercado" de terça-feira. Seu autor é Bráulio Borges, mais um economista que escreve em português (um dia chegaremos à primeira dúzia).
Em "Pós-crise de 2008, debate mundial começa a reavaliar velhas ideias'", Borges mostra que as cabeças mais relevantes da "ciência econômica" estão derrubando as teses de política econômica ainda predominantes e adotadas pelos economistas e outros contra as linhas básicas da política econômica no Brasil.
A outra sugestão é para que v. comece bem as quartas-feiras. Se lhe ficam ainda reservas vindas de longe, releve-as e leia os artigos em que Delfim Netto tem dito muito do que precisa ser dito para fazermos ideia de onde e como estamos, de fato. Descontados, pois, terrorismos e eleitorismos. Ou, no caso, são a mesma coisa?
E como crucial vem de cruz, não se esqueça: enquanto o papa Francisco não chega, reze pelos nossos comerciantes, para que recuperem suas perdas.


Rui Daher
Administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola, produtor rural. Trabalhou por mais de 30 anos em empresas do agronegócio. rui_daher@terra.com.br

Extraído do terramagazine

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