Chegou ao
fim a defesa dos 38 réus da Ação Penal 470, chamada de “mensalão”. Com pequenas
variações ouviu-se insistentemente o som vindo de uma tecla só: o Ministério
Público não apresentou provas consistentes para sustentar as acusações de
lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, corrupção, e muito menos demonstrou
a origem ilícita do dinheiro usado nas transações políticas entre os partidos
transformados, pela acusação, em quadrilha.
Os
advogados destruíram não só a acusação como também o acusador. O
procurador-geral da República, Roberto Gurgel, foi soterrado por pesadas
adjetivações negativas sobre o trabalho que fez.
Desfilaram
pelo plenário do Supremo Tribunal Federal alguns dos maiores criminalistas do
País, oferecendo aos 11 julgadores mais, sempre muito mais, do mesmo. Não se
tratava de uma música orquestrada pelo claro desentendimento de objetivos entre
alguns deles.
Assim,
nem tudo foi
exatamente igual. No antepenúltimo dia das sessões de defesa, terça-feira 14,
subiu à tribuna Inocêncio Mártires Coelho, advogado do ex-deputado José Borba.
Além de repetir pontos de teses já sustentadas, apresentou variações
importantes na argumentação. A intervenção de Mártires Coelho no julgamento não
apareceu na síntese do dia seguinte feita pelos principais jornais brasileiros.
Mas ela traduz inquietações que, seguramente, afligem todos os defensores que
se apresentaram no STF. Um ponto crucial do teor do que ele disse talvez
explique essa conspiração de silêncio:
– Nos
diferentes meios de comunicação corre a notícia de que os votos das senhoras
ministras e dos senhores ministros já estariam prontos ou, no mínimo,
rascunhados, com suas excelências apenas aguardando que se cumpra o cansativo
ritual dessas sustentações orais para tornar públicos seus veredictos.
– A ser
verdadeiro esse noticiário (…) já teriam firmado a sua convicção e elaborado
seus votos com argumentos que lhes pareceram convincentes, sendo desnecessária
(…) esta derradeira fala dos advogados…”
– Não,
isso não pode ser verdade, sobretudo porque, neste momento em que a defesa se
pronuncia pela última vez, pontos importantes, que eventualmente tenham passado
despercebidos (…), uma vez esclarecidos e criticamente analisados, certamente
influenciarão, na exata medida em que lhes tragam razões novas capazes de
justificar a decisão final.
As
reportagens com o conteúdo descrito por Mártires Coelho formam o rolo
compressor da imprensa para a condenação dos réus. É a pressão final. Neste
caso, com a contribuição de alguns ministros. Ingenuamente talvez, mas
indevidamente por certo.
Mártires
contextualiza isso com sutileza quando afirma: “Nenhum juiz caminha virgem nem
impermeabilizado para a decisão de um caso”. E acrescenta: “Por isso, por mais
que se esforce para ser objetivo, ele sempre estará condicionado pelas
circunstâncias ambientais em que atua, pelos seus sentimentos, suas inclinações…”
“Juiz
asséptico, objetivo e imparcial não passa de uma impossibilidade antropológica,
porque não existe neutralidade ideológica”, ataca. Mas isso não impossibilita
um julgamento honesto. Segundo ele, quando se pede a imparcialidade do
julgador, pede-se somente que ele “não tome partido e que arbitre as contendas
com a maior isenção, tratando o irracional, em que consiste a aplicação do
direito, da forma mais racional possível”.
Mauricio Dias/Carta
Capital

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