quinta-feira, 7 de julho de 2011

Candido, na Flip: "Oswald era um inimigo da depressão"


Claudio Leal

"Um sobrevivente", na sua própria definição, o crítico Antonio Candido, 93 anos, abriu a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) com um testemunho sobre o escritor modernista Oswald de Andrade, o homenageado do evento. "A vida dele é tão rica, a personalidade tão poderosa, que a personalidade concentrou mais atenção que a obra. Na minha geração, ele era conhecido pelo homem Oswald de Andrade", afirmou Candido, sempre com a pronúncia Oswáld, com acento tônico no "a", familiar a seus ex-alunos.
"Ele tinha atitudes excêntricas, gostava de chocar, e formou-se uma lenda em torno dele. Cheguei a ouvir em Minas: 'Oswald de Andrade roubou uma aluna da Escola Normal em plena luz do dia'", brincou. Risonho, o crítico demonstrou que, apesar de esquivo a entrevistas, sua memória de causeur continua brilhante. Recordou-se das polêmicas jornalísticas de Oswald e das suas tiradas contra desafetos que, depois de lamberem as feridas, voltavam à amizade. "Ele era de um brilho verbal que só quem conheceu pode avaliar. Ninguém, através da obra dele, pode ver aquele jorro de humor, de ironia, de sacarmo".
"A presença de espírito constante fizeram de Oswald um mestre do jornalismo. Era uma personalidade muito adequada ao que o jornalismo é ou quer ser", definiu Candido, o último amigo do escritor ainda vivo. Para o crítico, as brigas, a personalidade feérica e a ausência de reedições de suas obras, prejudicaram o conhecimento de suas ideias. "Os autores frequentemente pagavam as edições de seus livros. Quando era poesia, então, não encontrava editor. Oswald de Andrade e Mário de Andrade custearam os livros deles (...) Sempre fui um rato de livraria e de sebo. Em toda minha vida, (o romance) 'Sefarim Ponte Grande' só vi à venda uma vez, em 1934, numa livraria de Poços de Caldas, onde eu morava. Em Rio, São Paulo, não havia", testemunha.
O crítico acrescenta mais um fator para o esquecimento da obra de Oswald: "Ele era extremamente suscetível quanto à crítica. Escreveu sobre Oswald de Andrade, vinha pancada. E ninguém escrevia. Porque vinha o sarcasmo dele brilhante. Ele despertava certo temor. Nos anos 1920 e 1930, não conheço nenhum importante artigo sobre Oswald de Andrade, salvo um de Mário de Andrade".
"Ele me malhou bastante. E ele, quando malhava, não tinha limites. Agora, mesmo nesse período que ele estava indisposto com uma pessoa, se ela fizesse uma coisa interessante, ele elogiava", lembra. Antonio Candido recordou-se de um apelido cunhado por Oswald para atacar o escritor Mário Neme, presidente da delegação paulista para o Segundo Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte. Por não ter sido incluído na delegação, Oswald passou a chamá-lo de "Grão-Turco de Piracicaba", procurando atingir a ascendência árabe e caipira do rival. "É um caipira que ainda por cima é turco", interpreta Candido. Nas polêmicas, o modernista também não respeitava defeitos físicos e a etnia.
Antonio Candido considera "dramática" a briga de Mário de Andrade e Oswald. "Foi ele que descobriu o Mário de Andrade. Ele empurrou o Mário pra frente. Depois eles brigaram... Uma coisa patética é que o Oswald passou a vida tentando fazer as pazes. Mário de Andrade não aceitou... Ele metia o pau, mas admirava profundamente Mário de Andrade", ressalta. Apesar de ter sido alvejado pelo sarcasmo, o autor de "Macunaíma" também reconhecia o valor da obra do ex-amigo. Quando Candido, na década de 1940, criticou um livro de Oswald, "Mário não concordou. 'É muito bom!'".
"Dois grandes escritores, fraternais amigos, com o mesmo sobrenome inclusive, e no entanto... Para o Mário, brigou, brigou. Oswald gostava de brigar e desbrigar... Com o Mário, não conseguiu", lamenta. "Quando o Mário morreu, ele ficou desesperado. Quem me contou foi a mulher dele, Maria Antonieta. Teve um desespero terrível. Ele gostava do amigo".
Num dia frio - "como esse, em Paraty" -, perto de morrer, Oswald convocou Antonio Candido para prestar uma declaração de amizade e respeito: "Considero Mário de Andrade a maior figura do modernismo brasileiro. Considero 'Macunaíma' a maior obra do modernismo brasileiro. Era o livro que eu gostaria de ter escrito", sentenciou Oswald.
"Era de uma extrema mobilidade nas opiniões, mas de uma extrema constância em tudo que se referia a ideias. Era de uma continuidade e coerência extraordinárias", analisa. "Ele sempre manteve um inconformismo com a sociedade burguesa".
Recorrendo ao exemplo de Eça de Queiroz, Antonio Candido definiu a agilidade verbal da metralhadora oswaldiana: "Foi um homem que soube usar a arma do riso (...) Nada resiste ao riso. E isso está em Oswald. A arma do riso foi um dos grandes instrumentos do modernismo brasileiro. Os modernistas mostraram que literatura séria, literatura alta, não é incompatível com o riso e a brincadeira... Eles acabaram com isso".
"Ronald de Carvalho escreveu um artigo muito bonito: 'O claro riso dos modernos'. Oswald tinha isso, o claro riso dos modernos... Quando a gente fala de Oswald de Andrade, deve falar sempre com alegria. Era um inimigo da depressão", concluiu Candido.
(As mesas da Flip podem ser acompanhadas pela internet: http://www.flip.org.br/flipaovivo.php).
Extraído do TerraMagazine

Um comentário:

  1. João de Deus NETTO7 de julho de 2011 às 08:57

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